arte na periferia: As crônicas de um tempo ruim

18 de junho de 2010

As crônicas de um tempo ruim


Ontem chegou nas minhas mãos o livro Cronista de um tempo ruim do Ferréz. Na verdade um livrinho, edição de bolso, cheio de bombas. E vou dizer que se você não quer ouvir histórias  reais de terror, não leia.
Há um tempo tô querendo escrever sobre os últimos livros que li, isso porque pelo menos uns quatro eu peguei emprestado na Bicicloteca. Desses últimos eu li Madame Bovary, que a Suzi me emprestou, que tá ali na bicicloteca né... Aí li da Bicicloteca mesmo, Memórias de um cucaracha do Henfil, Cuca fundida do Wood Allen, Crônicas, contos e aforismas do Kafka, Juventude Supersônica do Beso, tem mais um ainda que não me lembro agora.
Essas idéias loucas como a Bicicloteca, pode parecer coisa de doido, mas vejam bem. Eu leio desde os 16 anos, com 16 li a divina comedia (mas só a parte do inferno) nem entendi direito na época, mas tenho imagens muito vivas na minha cabeça daquele inferno.
Ultimamente a maior parte dos livro que tenho lido ou vem da Bicicloteca, ou é emprestado de alguém de algum sarau que freqüento. Portanto, mesmo quem já adquiriu o habito da leitura, o gosto pela coisa, tem dificuldades em descolar um livro pra ler e nesse sentindo o Binho é foda, porque ele tá sempre me dando alguma coisa pra ler... esse é um sujeito extremamente perigoso.
Daí tava sem nenhum livro pra ler, e como pego ônibus todos os dias fico angustiado quando termina um livro e eu não tenho outro, porque é foda ficar três horas na porra do busão todo dia, de pé e sem nada pra fazer... aí chegou esse livro do Ferréz, que eu praticamente comi.
Enquanto ia lendo uma crônica atrás da outra eu ia pensando como esse livro devia ser lido nas escolas, devia ser propagado que nem campanha política. Não é a toa que editora nenhuma quis editar, o livro fala de toda a sacanagem que a gente vive todo dia calado, e de tanto ficar calados, vamos esquecendo e nos acostumando com a barbárie do nosso tempo, do dia-a-dia, do cotidiano 100%.
Eu já tava chegando em São Judas, quando comecei a ler uma crônica/conto intitulada: Sobre pássaros e lobos, gostei do titulo de cara e fui lendo. Camisa Ombongo, tennis nike, calça levis, pálio zero e por aí vai. O personagem que passa o dia inteiro lavando seu carro como se ele fosse o bem mais precioso da sua vida. Morei numa rua quando criança, aqui perto no Parque Santo Antônio, que tinha pelo menos uns três caras que passavam o domingo todinho lavando seus carros ou motos, sempre achei uma loucura.
O conto ia escorrendo, até que o narrador (que é o Ferréz mesmo) em contraponto a personagem povo, começa a falar de um ninho que apareceu na arvore de sua casa. Vou transcrever uma passagem que me fez arrepiar os pelos do braço e encheu de água meus olhos...
”... e apesar de toda a batalha da vida, eu lia sobre o sol, sobre o céu que não é mais tão sinistro, sobre histórias contadas como devem ser, levemente, calmamente, como uma caminhada em boa companhia...”
Essa coisa do céu que já não é tão mais sinistro e de histórias contadas como devem ser... isso ainda agora me faz arrepiar e lembrar de um tempo que meu céu era realmente muito sinistro, e que as histórias, sempre sussurradas, davam medo de não deixar dormir.
Esses dias estava voltando do bar com o Luca e com o David (filho do augusto), ambos entre 7 e 9 anos. Vai com calma, essa história de que bar na periferia tá virando centro cultural é verdade, eu não estava tomando um breja com os muleques, tava só curtindo o sarau, o poesia de esquina. Eles começaram a falar de pesadelos e coisa e tal, daí o David falou: mano, não existe nada pior pra uma criança do que um pesadelo. O luca concordou, é verdade pai, pesadelo é a pior coisa do mundo.
Se um dia eu votar a ser criança, vou ser um guerreiro pra combater pesadelos e céus sinistros...



Peu Pereira

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