arte na periferia: Discutindo o Cinema de Quebrada

24 de novembro de 2008

Discutindo o Cinema de Quebrada

ENSAIO
ROSE SATIKO GITIRANA HIKIJI, especial para o Jornal da USP

No texto a seguir, professora da USP comenta a experiência de produzir Cinema de quebrada, um filme etnográfico que aborda a produção audiovisual da periferia paulistana

A jovem produção audiovisual na periferia de São Paulo: espaço de experiências compartilhadas, reivindicações e criações próprias

No dia 5 de novembro, estreou no Cinusp Paulo Emílio, da USP, o filme Cinema de quebrada. O documentário apresenta idéias, imagens e ações de jovens realizadores e exibidores de vídeos, moradores da periferia de São Paulo. É o resultado audiovisual de pesquisa antropológica que desenvolvo desde 2004, com apoio da Fapesp, e que nos últimos anos incorpora um grupo de pesquisadores de iniciação científica, por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e do Projeto Ensinar com Pesquisa, da Pró-Reitoria de Graduação da USP. Neste artigo, apresento o tema que abordo no filme Cinema de quebrada e a proposta de realizar, por meio do filme etnográfico, um exercício de partilhar a antropologia.
Estabeleci meus primeiros contatos com a recente produção de vídeos comunitários, também conhecidos como vídeos periféricos ou populares, em 2004, no 15o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo. O festival apresenta, desde sua 13ª edição, o “Formação do Olhar”, um programa de debates e exibições composto exclusivamente por trabalhos realizados em comunidades. Na edição de 2004, foram exibidos vídeos produzidos em projetos espalhados por oito estados do Brasil, entre os anos de 2003 e 2004.
Desde então tenho acompanhado o que percebo hoje como um movimento do qual pude assistir quase os primeiros passos, e que vive um crescimento nos últimos anos. O que em 2004 poderia ser caracterizado como o fomento da produção audiovisual nas periferias por meio principalmente de ONGs e do poder público, hoje precisa ser descrito como algo maior, protagonizado pelos próprios membros das comunidades, que passam a atuar como realizadores, exibidores e militantes de um movimento pela democratização do audiovisual.
Nos últimos anos, acompanhei festivais, fóruns de discussão em torno do cinema de quebrada, assisti a dezenas de filmes produzidos em comunidades ou oficinas, conheci grupos que realizam e exibem cinema nos becos e vielas, acompanhei os debates e discussões em torno dessa produção em reuniões com a presença de coletivos de quase todas as regiões de São Paulo.
Cinema de quebrada traz os filmes e as reflexões de alguns dos coletivos e sujeitos que conheci, como o Filmagens Periféricas (de Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo), o Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo (de Taipas, zona norte), o Arte na Periferia, o Núcleo de Comunicação Alternativa (NCA) e o Cine Becos, da zona sul.
Em comum, o fazer audiovisual é pensado pelos grupos como meio de expressão e de reflexão, “arma” ou “instrumento de uma transformação política e cultural”, como me disse David Vidad, do Arte na Periferia. Nos filmes e nos discursos desses realizadores, ouvi com freqüência o questionamento às representações midiáticas da periferia, que reforçam estereótipos, ao associar a periferia exclusivamente à criminalidade violenta.
Um movimento que decorre da percepção do problema da representação da periferia na mídia por parte de seus moradores é o da construção de contranarrativas. Por vezes, essas narrativas apresentam lados menos conhecidos das comunidades periféricas, como a produção artística ou a intensa sociabilidade. É o caso do filme Panorama, arte na periferia, de Peu Pereira e David Vidad, que apresenta as manifestações culturais que movimentam toda a semana da zona sul de São Paulo, como as rodas de samba, as sessões de cinema e os espetáculos de teatro e dança, entre outras.
Outras vezes, o alvo são as narrativas dominantes e seu esforço de homogeneização da periferia, como relata Daniel Fagundes, do Núcleo de Comunicação Alternativa, também da zona sul: “Eu acho que não se tem uma forma específica e nunca vai existir uma forma de como se representar a periferia. Eu acho que cada um vive a sua realidade e sabe como é que ela é. Eu tenho a minha visão, de ver como é o mundo, como é a minha comunidade, como é que são as pessoas com quem eu convivo. Nas vezes em que eu faço um filme, eu tento mostrar da minha forma. A gente tem muito acesso à Globo, ao SBT, a esses canais de grande acesso. E o que eles passam é uma visão que está aí há muitos anos. Uma visão hegemônica de uma elite que, na verdade, quer que a gente continue cada vez mais pobre e no mesmo lugar”.
Para esses jovens realizadores, é fundamental ter acesso ao conhecimento sobre o cinema, debater criticamente a linguagem cinematográfica ou televisiva, desenvolver experimentos audiovisuais em diversas linguagens, questionar as relações de poder nas esferas de produção de imagens e conhecimento. No filme, apresentamos algumas das estratégias para tal e as enormes dificuldades que enfrentam.
A fala de Vanice Deise, do Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo, não é uma exceção: “É até humilhante, né? Você ter que chegar para um cineasta, para um professor, ou para alguém que tem a câmera que a mãe comprou e falar: ‘Você pode me emprestar por um, dois dias, uma semana, para eu poder fazer meu filme?’. Aí a pessoa falava: ‘Ah, eu empresto minha ilha para você’. Mas quando você estava lá na ilha, o cara estava do seu lado, louco para você sair”.
Outro ponto defendido pelos realizadores de quebrada é justamente a construção da quebrada, periferia ou do popular como marcadores de diferença. Cinema de quebrada, cinema de periferia, audiovisual popular são alguns dos nomes com os quais os coletivos de produção e exibição audiovisual têm se apresentado, em fóruns públicos de discussão e organização, mostras de cinema, na mídia.
Em comum, há a preocupação em caracterizar a periferia como espaço de experiências compartilhadas, reivindicações próximas e criações próprias. No documentário, os jovens apresentam também seus olhares sobre a periferia e o centro – as pontes e barreiras entre esses espaços. No processo de pesquisa e de realização do filme, pude perceber a força de uma reflexão inédita, em que o cinema é meio de relação e de transformação.

Diálogo – Quando iniciei a pesquisa, tinha como fonte inspiradora a proposta do antropólogo e cineasta Jean Rouch, que desde a década de 1940 até sua morte, em 2004, realizou mais de cem filmes, a maioria na África, e defendeu o cinema como meio de partilhar a antropologia. Como Rouch, gosto de pensar na possibilidade de fazer, por meio da produção de um filme, uma antropologia na qual a produção do conhecimento se dá no diálogo com o sujeito pesquisado, e por meio da qual é possível devolver aos grupos pesquisados o conhecimento com eles produzido.
Compartilhar, no processo de pesquisa e realização de Cinema de quebrada, significou construir um filme ouvindo o que os jovens que conheci têm a dizer sobre o fazer fílmico e o estar no mundo. O meu trabalho como antropóloga e documentarista foi o de construir narrativas audiovisuais e textos a partir das imagens que eles próprios realizaram. Compartilhar tem sido também estabelecer conversas acerca do que cada um de nós pensa e faz com imagens.
Nas duas primeiras exibições do filme em São Paulo, realizamos longos debates com a presença de alguns dos protagonistas. As conversas a partir do filme são também parte do processo de partilha. Na estréia do filme, no Instituto Pólis, em outubro passado, discutimos, a partir de uma proposição de Fernando S. Soares, do Núcleo de Comunicação Alternativa (NCA), o problema de identificar como um movimento algo que não é homogêneo – as ações e preocupações em torno dos usos do audiovisual na periferia de São Paulo. A questão de Fernando Soares colocou a necessidade de problematizar os termos da própria análise. Percebi que, quando falava em movimento, não tinha o objetivo de congelar e homogeneizar as idéias e ações que observo em campo. Pensava, como sugere o antropólogo Márcio Goldman, no movimento do movimento, o Cinema de quebrada como espaço de criação de subjetividades, construção de territórios existenciais.
Assim como a etnografia, o filme etnográfico também corre o risco de fixar o que observamos. Os sujeitos que protagonizam o filme – e a partir dos quais conhecemos o cinema de quebrada – seguem o rumo de suas vidas, mais ou menos próximos dos projetos que escolheram apresentar no momento de construção do filme.
“Durante a gravação do filme, seus sujeitos estão em transição, movendo-se rumo a um futuro que o filme não pode conter”, alerta o cineasta David MacDougall, em Transcultural cinema. Se, felizmente, o filme não pode conter o futuro dos sujeitos, tampouco pode conter seu próprio futuro. Durante suas exibições, é reconstruído por meio dos olhares do público, ganha novos sentidos nas reflexões que provoca. Cria novos espaços de partilha.
Em tempo: um novo espaço, recém-criado em conjunto com os alunos de iniciação científica que participam desta pesquisa, é o blog Antropologia Compartilhada (www.fflch.usp.br/da/antropologiacompartilhada/blog). A idéia é ocupar a rede com nossas reflexões, provocar mais debates, divulgar o que vem acontecendo nas quebradas, pelas mãos de quem pensa o cinema como meio de transformação, intervenção, provocação.

Mais informações sobre o filme Cinema de quebrada podem ser obtidas no endereço eletrônico www.lisa.usp.br.

Rose Satiko Gitirana Hikiji é professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e vice-coordenadora do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa) da USP.

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