arte na periferia: fazer cinema na periferia

7 de maio de 2009

fazer cinema na periferia

Produzir cinema já é difícil no Brasil, na periferia então. Pior. Porém não quero dizer que tudo é difícil e nem que tudo é maravilhoso, para mim é uma situação normal. Nunca estive numa produção grande, nunca estive num estúdio, vendo a construção de um cenário, num sentindo onde se pode construir o filme, dia a dia, criar seu universo peculiar, seus movimentos, seu clima.

Fazemos do jeito que dá e queremos fazer de um jeito que fique bacana, bonito, sem rasuras. E para tal, evidentemente é necessário uma planilha de produção, listas de equipamentos detalhados por dia de uso, datas, equipes, atores, figurinista, maquiador, continuísta e mais uma porrada de coisas. E óbvio que não temos tudo isso.

Mas quem falou que cinema é isso? Ou que deva ser feito desse modo? E não quero dizer que o modo do fazer cinema hoje é errado, acho um esquema muito engenhoso. Que prevê boa parte das coisas que precisam ser previstas.

Mas para mim toda essa dimensão da produção torna a matéria prima opaca, desgastada, aquela história tão rica, tão gostosa, tão fantástica, agora está no canto da sala. Muita demora pra produzir, é um erro grave! Mas não teve jeito, assim foi. O que vamos fazer? Continuar tentando, mas sem essa de que “hó! Estão produzindo cinema na periferia, que magnífico”.

Porque não se perguntam, como é fazer poesia na periferia? Por acaso ela foi feita em outro lugar? Creio que reproduzimos nosso meio até o ponto em que encontramos algo que deixa de ser uma sugestão, pra ser arte de fato, é isso que procuro. Parafusando meu amigo Huguêra, não sei o que quero ser quando crescer, mas quando morrer quero ser arte.

Gosto de todo tipo de histórias, mas meu interesse é contar histórias da minha cidade, do meu bairro, sobre coisas que eu vejo, que eu vivo, das relações que existem nesse universo, o que me parece bastante natural. Gosto dos poemas do poeta O Augusto, justamente por isso, retrata uma tipo de gente, um lugar, pessoas que existem e coisas que acontecem. E isso, de maneira alguma, é impedimento de se falar de qualquer outro fato global.

Fazer um filme é antes de mais nada, conviver com seu fantasma, com a idéia que o gerou, com seu peso e seu clima, com seus personagens, hora agradáveis, hora impertinentes. É deixar que ele te diga o que fazer. A melhor imagem que tenho disso é a seguinte. Um dia estava esculpindo um pedaço de madeira que tinha demorado muito pra escolher. Queria tirar uma forma humana dali. E cortava a madeira a torto e a direito, quando a Selma chegou e disse, “para aí, olha a madeira, olha como ela se mexe, como se movimenta, olha os seus veios, veja onde ela para pra recomeçar, deixe que ela te mostre”.

Portanto pra mim fazer um filme é um sentimento, é tentar chegar a ele, sabendo que no melhor dos casos, o filme produzido só chega bem próximo do filme imaginado. E se esse processo for comum, então fazer cinema é igual em qualquer lugar do mundo. Evidentemente as condições e meios mudam de um lugar a outro. A O2 deve ser bem diferente da minha casa.

Peu Pereira

2 comentários:

Gunnar Vargas disse...

mas é justamente aí que mora a chave da questão! sua arte será muito mais autêntica! e mesmo que não tenha toda a "super produção" da qual outros grandes diretores tem acesso, terá, será mais intenso em significado e valor artístico. Nosso problema não é com a arte ou fazer artístico, mas em como sobreviver neste mundo...

v. disse...

Delicia de texto...
Que ainda provoque muito choque falarem de cinema feito pela periferia, pelo pobre, o nome que for. Que demorem pra se acostumar e quando repararem, já vai ser bem maior do que pensavam. E vai mostrar que quem quiser vai poder fazer. =)

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