arte na periferia: EDIÇÕES TORÓ CONVIDA!

5 de junho de 2008

EDIÇÕES TORÓ CONVIDA!

LANÇAMENTO DO LIVRO DE CONTOS

DE RODRIGO CIRÍACO

Salve. Licença.

É na fome de buscar antigos e novos LEITORES; na sanha em carne viva que namora com o trabalho calculado de formar nosso público, o povo que LEIA nas beiradas da metrópole, que suados e felizes chamamos pro lançamento do livro “ Te pego lá fora”, contos escritos por Rodrigo Ciríaco.
Nosso 13° livro confeccionado, páginas da ladeira, do escadão; nosso primeiro livro apenas de contos.
As 25 estórias apresentadas por Ciríaco, professor de história e cooperiférico, costuram caquinhos do universo das escolas públicas do Jardim Cisper/ Ermelino Matarazzo: flechadas na garganta, giz no estômago, carinhos de esperança e homicídios em gotas (carimbados nos diários de classe). Mais rasteiras matutas que a mulecada aplica, por baixo da tonelada de mordida que güenta no osso.
Ciríaco, entre o espanto e a profunda lucidez, dichava o tumor sanguessuga das coordenadorias que passam o ferrolho nos corredores do futuro ( É, esse cabra mentiroso que é o futuro, existe. Nãó é H nem onda de candidato. Acompanhe o florescer da expressão de uma criança que tu ouve o amanhã agora, gritando, tossindo, rodando. Ouve até a mímica).
Os lançamentos serão na Sul, no centro e em Francisco Morato. Cada um com o imã dos arteiros muito muito especiais que vão se parear e mostrar seus revides, suas arquiteturas. Confere e é só chegar. Precisamos de ti pra trincar esse cadeado.
Em anexo a arte do convite, e mais pra baixo aí vão 3 contos do livro. Aperitivo.
Quarta-feira – 11/06, a partir das 21 horas
No Sarau da Cooperifa- Onde mora o tição, a ciência, o sereno e a gana da Poesia.
Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Chácara Santana. Fone: 5891-7403
Quinta-feira – 12/06, a partir das 19 horas
Na Ação Educativa – Com o violão de Gunnar Vargas; o versado do Sarau Elo-da-Corrente, de Pirituba; a sanfona de Aline Reis e os contos de Marcelino Freire
Rua General Jardim, 660 – Vila Buarque. (próxima ao Metrô República)
Fone 3151-2333

Domingo – 15/06, a partir das 17 horas
III Encontro de Literatura Periférica de Francisco Morato
Centenário de Solano Trindade. Convidada especial: Raquel Trindade
No CIC ( Centro de Integração da Cidadania)

Rua Tabatinguera, 45 ( próxima à estação de trem de Francisco Morato, colada na prefeitura)


TRÊS CONTOS...

QUESTÃO DE POSTURA

O professor observa o menino no canto da sala, sozinho. Suando frio. Esfregando a mão dentro da calça. Estranha. Aproxima-se, com calma. O aluno de cabeça baixa, concentrado. Não percebe a chegada. Assusta. Coloca de volta, rápido. O professor, meio sem jeito, pergunta:
- O que é isso, Lucas?
O aluno não vê outra solução. Abaixa o zíper. Mostra o revólver.
- Ah! Tudo bem. Pensei que fosse outra coisa.
- Ô, que isso! Tá tirando prussôr?




PAPO RETO

Vou te explicar, só uma vez, porque apesar de parecer inteligente, você ainda é muito novo pra entender. Não tem a malícia, a experiência da vida. Aqui, as coisas não são do jeito que você quer. Tudo tem o seu ritmo, o momento certo. Você não pode chegar aqui e querer mudar tudo. Fazer a revolução, entende? Não, aqui você entra no esquema, no jogo. Ou entra no jogo ou tá fora do baralho. E te digo: carta fora fica marcada. Cê tá lascado.
Tô falando isso porque vocês, professores, criticam, mas não entendem como é difícil ficar aqui atrás dessa mesa. Acham que é fácil dirigir uma escola. Só reclamam, reclamam: ah, que não tem organização, ah, que não tem transparência nas coisas; que eu nunca tô presente. Vou deixar uma coisa bem clara, já que você me questionou: a minha vida não é isso aqui. Isto é uma pequena, pequena parte dela. Eu tenho outras preocupações, entende? Por exemplo, tenho o financiamento do meu carro. Tenho a escola particular dos meus filhos, tenho o meu apartamento. Eu trabalho em três empregos, professor. Três! Veja a minha responsabilidade. Se vocês não me vêem aqui quando precisam, não é por que eu tô vagabundeando não. Vê se alguém da secretaria bota falta no meu livro de ponto quando não venho? Não, eles sabem que eu não sô pilantra, não tô enrolando. Tô trabalhando. Tra-ba-lhan-do. E eles colaboram comigo. Isso se chama confiança, lealdade. Reciprocidade. Faço a cobertura deles quando fazem umas cagadas por aí. Trabalho de equipe, entende? Por isso, sou bem clara. É tua escolha. Ou entra na dança ou procura outra escola. Sem vacilação. Você não pode conosco. Nós somos a maioria.
O negócio aqui é sério.



Bia não quer merendar

Bia não quer merendar. Bia nunca comeu a merenda mas ouviu dizer que é ruim, que é sempre a mesma coisa; que não presta. Bia vê o que alguns alunos fazem com a merenda: dão duas colheradas e deixam no canto; amassam, fazem uma pasta e jogam uns nos outros. Guerrinha. Raspam o fundo do prato com a colher de plástico, dão uma lambida e pedem: - Tem mais, Tia? Bia acha engraçado. Os merendeiros. Bia diz pras amigas “eu não, eu não sou merendeira”. Ela inclusive viu esta semana uma calça. A tia falou que vai lhe dar um tênis. Já encomendou um celular para a mãe. Tem nome e marca de carro: um V8. Bia espera que o seu V8 não demore. Ela tem medo. Não pode deixar de se comunicar com as meninas. Odiaria ser rejeitada pelas amigas. Não ter um grupo. Ser apenas mais uma do povo. Já pensou, comer a merenda, como todos? O Zé-povinho? Ela não. Bia não se importa de não comer. As modelos não são todas magras? Quem dera tivesse anorexia. Dizem que é doença de rico. Tomar sorvete, comer lanches, salgados e depois vomitar. Pelo menos esta dor no estômago, esta fraqueza faria sentido. Bia não quer merendar. Ela já avisou: não tomou café, não almoçou. Não, não é dieta. Não comeu porque não tinha. Assim como no intervalo não tinha dinheiro pra cantina. Bia não quis sair para comer a merenda, ainda que fosse às escondidas. A última coisa que Bia insistiu em dizer, antes de desmaiar de fome, foi: “Professor, eu, eu... Eu não sou merendeira.”

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