arte na periferia: CULTURA PERIFÉRICA

29 de fevereiro de 2008

CULTURA PERIFÉRICA

VOLTAMOS EM GRANDE ESTILO COM UM BELO ARTIGO DO ELEILSON LEITE SOBRE NÓS...

No mundo da cultura, o centro está em toda parte

Tenho abordado aqui os eventos e a produção artística dos que moram nas bordas da metrópole paulistana. Mas nunca me referi a esses artistas como famélicos, excluídos, abandonados ou qualquer adjetivo semelhante. Trato da cultura de periferia por entender que há uma arte sendo produzida nos becos e vielas. Pela densidade, originalidade e contundência, há sinais de que um movimento está surgindo. Grifo: a partir da periferia. Ou seja, não está restrito a uma área geográfica ou a um segmento social. A cultura é algo muito avesso à fronteiras. Mas a matriz está lá do outro lado da ponte, como falam os poetas da Cooperifa. E isso não pode ser negado. Tem que ser afirmado.

Passados mais de dez anos do surgimento do disco Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC's e do livro Cidade de Deus, do Paulo Lins, marcos de uma arte gestada e parida nos arrabaldes, muitas outras obras, em todas as linguagens artísticas, surgiram para confirmar que uma arte renovadora pulsa no gueto. Nem vou citar exemplos. São inúmeros. Está aí a Agenda Cultural da Periferia, que chegará a sua décima edição em março, apresentando cerca de 80 eventos na Região Metropolitana de São Paulo. Hoje, a questão que se coloca já não é só a visibilidade de uma arte que não tem vez na grande mídia.

Precisamos discutir também que arte é essa que se faz nas periferias. Será que sua originalidade se resume ao fato de ser produzida por um segmento da população tido como pouco letrado, "excluído"? Será que é pelo inusitado? Será que do ponto de vista conceitual ela não se fundamenta? Ouvi do professor André Bueno (UFRJ) uma argumentação, segundo o qual não faria sentido uma cultura de periferia. Ele formulou sua opinião baseado no seguinte relato. Certa vez, uma pesquisadora alemã visitou os morros cariocas. Entrou numa dessas ONGs que atuam nas favelas durante uma aula de música clássica. Encantou-se com a música tocada por um garoto e perguntou quem era o autor de tão bela composição. O menino, surpreso, lhe respondeu: "É Mozart, minha senhora". O professor deduziu, a partir desta situação, que os mundos se cruzam, dialogam, etc, e que falar de uma cultura de periferia é restritivo e afirma o gueto.

Mas a cultura de periferia é um movimento de afirmação mesmo. Afirmação positiva, altiva do gueto. Mas essa é apenas a justificativa política. Temos que aprofundar a reflexão. Será que esse movimento está produzindo de fato uma estética nova? Nesse sentido, a provocação do professor André Bueno é oportuna.

Heloísa Buarque de Holanda espantou-se com Ferréz: se tem interesse em Flaubert é porque "quer ter acesso à alta cultura". Quer dizer, então, que Ferréz é "baixa cultura"?

Mas penso que a universidade tem ajudado pouco nessa reflexão. E certos intelectuais de esquerda acabam piorando a situação. O escritor Ariano Suassuna também reclama dos acadêmicos (embora também o seja). Ele é freqüentemente alvo de críticas de intelectuais que também vêem o Movimento Armorial, que criou há mais de 30 anos, como a "afirmação do arcaico". Mesmo uma acadêmica como a Heloisa Buarque de Holanda, que além de professora universitária no Rio é também editora [1] e uma entusiasta a da arte de periferia, comete seus equívocos na análise dessa cultura. Em recente entrevista a um programa de TV, Heloisa mostrou-se surpresa ao saber que o escritor Ferréz teria dito que queria ler Flaubert. "Veja, ele quer ter direito à alta cultura", concluiu a professora. Quer dizer que a literatura feita pelo Ferréz é "baixa cultura"? Bom, confesso que achei até estranho o autor de Capão Pecado ter demonstrado interesse pelo autor de Madame Bovary. Mas tenho certeza de que o Ferréz não considera sua literatura menor do que a do Flaubert.

O pior caminho para se discutir cultura é hierarquizando: alta-baixa; popular-erudito. Essa visão reforça o sistema de dominação. E aí se afirma o gosto da elite. Ora, é melhor, então, afirmar o gueto do que os palácios.

Existem culturas e culturas. Nenhuma é mais do que a outra. Quando falamos arte da periferia, não está aí embutido um juízo de valor. Na periferia são ruins o asfalto, o esgoto, a escola, o transporte, a violência — embora esses problemas não sejam generalizados por todo o subúrbio. Mas a cultura, mesmo feita no fundo do quintal do barraco, pode ser bela, virtuosa, arrojada, elegante, arrebatadora ou qualquer outro adjetivo atribuído normalmente à produção das elites. O fato é que, por uma série de fatores, a arte produzida nas periferias é portadora de novos conteúdos, de uma estética diferenciada. Já é possível observar isso. O que ainda não dá, ou pelo menos não se tem notícia de quem o fez, é formular um pensamento sobre essa novidade. Para isso, é preciso primeiro difundir e fomentar essa produção artística, como já está acontecendo — inclusive com o impulso de importantes políticas públicas.

Certamente, Cantos Negreiros, Hospital da Gente, o Sarau do Rap ou a Orquestra de Berimbau do Morro do Querosene apontarão elementos para pensar uma arte da periferia

Não dá mais para falar da arte da periferia só como fenômeno social. O momento é de fazer experimentações, aproximações com outras linguagens e movimentos. Nessa trilha, o espetáculo de Marcelino Freire, Cantos Negreiros, em cartaz neste final de semana na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, em Pinheiros, é uma boa iniciativa. O escritor divide o palco com a sambista Fabiana Coza e convida para cada apresentação um poeta. Nesta sexta estará lá o Sergio Vaz, da Cooperifa. Outro espetáculo fundamental é Hospital da Gente que estréia neste sábado e segue em temporada. Trata-se de uma peça de teatro só com mulheres, montada pelo Grupo Clariô. O cenário é uma casa num bairro da periferia do Taboão da Serra. Nesta casa, com capacidade para apenas 25 pessoas, as atrizes encenam uma dramaturgia baseada em contos também do Marcelino Freire (o cara tem moral na quebrada). Certamente, esta montagem vai apontar muitos elementos para pensarmos uma arte própria da periferia.

Outros eventos e espetáculos são também muito representativos para análise da estética periférica. O Sarau do Rap, realizado todas as últimas quintas feiras do mês, na Ação Educativa, é outro exemplo. Sem música, os rappers declamam suas letras e observam sua construção poética. Essas composições serão posteriormente publicadas em livro. Poderemos notar o impacto de uma poesia feita para ser cantada, estampada nas páginas de um livro, para se lida. O show do DJ Erry-G Dos tambores aos Toca-Discos, realizado no domingo passado, sobre o qual decorri na coluna anterior, ao relacionar o scratch com a batida dos tambores africanos está propondo uma abordagem muito interessante. A Orquestra de Berimbau do Morro do Querosene, regida pelo percursionista Dinho Nascimento, e que se apresenta neste domingo no Sesc Ipiranga, é mais um espetáculo que oferece muitos elementos pra discutir a arte de periferia.

Vamos juntar esse povo, debater processo de criação, referências e conexões naquela piração agradável e estimulante que é a discussão sobre arte entre os artistas. É necessário também dialogar com a universidade. Reunir-se numa mesa com os intelectuais, levantar hipóteses num debate despojado de pré-conceitos. E temos vários artistas periféricos que são intelectuais, com graduação e pós-graduação. Mas alguns dos grandes mestres não sentaram em cadeiras universitárias. A eles daremos o título de "Doutor Honoris Causa" e ocuparão o centro da mesa. Por sinal, na Praça do Relógio, no campus da USP, há uma inscrição junto da torre do relógio que diz assim: "No universo da cultura, o centro está em toda parte". Não sei quem é o autor desta excelente definição, mas ela nos ajuda a compreender a cultura. É preciso afirmar a cultura de periferia não porque ela seja menor, distante ou esquecida. É preciso afirmá-la porque ela é centro também.

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