arte na periferia: Cinema, sociedade e vida na periferia

6 de dezembro de 2009

Cinema, sociedade e vida na periferia

Cinema, sociedade e vida na periferia
 
A arte produzida nas periferias de São Paulo, tirante o samba, gênero musical que deita longas raízes na cultura popular tradicional brasileira, já nasce moderna. Basta olhar a atual produção artística na área do audiovisual, da música e da dança, realizada pelos seus ilustres membros, na maioria jovens na faixa dos 16 e 30 anos, para termos certeza da força modernizadora da comunidade juvenil periférica.
E essa modernidade reside justamente na capacidade dessa arte promover um trabalho em duas direções distintas, mas indissociáveis: primeiro, o de recriação - por meio de novas linguagens e tecnologias – de modalidades culturais e artísticas do passado, e, segundo, o de orientação de um discurso edificante de uma sociedade plural, diversa e tolerante.
O bairro Cidade Tiradentes, localizado na Zona Leste de São Paulo, a 35 km do centro da cidade, é um desses casos em que o moderno se encontra com o passado étnico, cultural e ecológico do lugar. Lá tive a oportunidade de conhecer, no presente ano, além da paisagem natural exuberante da Mata Atlântica, uma equipe de profissionais negros do audiovisual.
À frente da agência “Filmagens Periféricas”, eles têm no currículo, entre outras peripécias, a realização da cobertura vídeo documental da 4º edição do “Prêmio Ethos de Jornalismo – Empresas e Responsabilidade Social”. Mas o melhor do trabalho deles está no olhar polissêmico que lançam sobre uma realidade que, tirante o verde da mata, é aparentemente monocromática.
Explica-se: diferentemente dos bairros-jardins da burguesia paulistana, da primeira metade do séc. 20, a Cidade Tiradentes, apesar da sua arquitetura monofuncional e produtivista - um aluvião de condomínios da Cohab e do CDHU - não procura apagar ou silenciar o seu passado. Nem tampouco reproduz a racionalidade e a disciplina dos bairros operários construídos pelos industriais no melhor estilo fordista, no decênio de 1920.
Outrossim, grita por todos os poros desse bairro a ascendência luso-africana e indígena; ancestralidade que se revela não apenas na cor da pele escura, no cabelo crespo e no cotidiano das ruas cheias de crianças correndo pra lá e pra cá, mas no olhar plural que a população lança sobre a realidade e que agora pode ser revelado através da câmera de filmagens.
Inicialmente, a Cidade Tiradentes nasceu como bairro improvisado, ou melhor, um lugar provisório, na falta de um destino certo para populações de destino incerto da São Paulo dos anos de 1950. Multifacetada, tal população era na época constituída de migrantes nordestinos, desfavelados, vítimas das enchentes e deslizamentos, falidos e desvalidos, negros, índios e aventureiros que, em meio aos ventos da modernização do centro, foram lançados para essa região periférica da cidade que se abre como uma clareira no interior da Mata Atlântica, e que ainda conserva cristalinamente a nascente do rio Aricanduva.
Tal pluralidade cultural, populacional e étnico, que compõe a realidade da Cidade Tiradentes, transforma-se em elemento de composição dos curtas-metragens e dos documentários da equipe da “Filmagens Periféricas”. Mas sempre como algo que está, fatalmente, condenado ao desaparecimento e à morte.
É, por exemplo, o que percebemos no curta “Não pedi para nascer” (2003), que fala da relação da mãe solteira e seu filho em meio ao mundo das drogas, da prostituição e do trabalho infantil.
 É o caso também de “Mão na obra” (2003), que trata da questão do gênero e o mundo trabalho. “Vida Loka” (2003) não fica de fora. Abordando temas tais como mãe solteira, desemprego e prostituição nos conduz a uma discussão sobre as neuroses vividas por quem está afundada nesse universo.
Para uma melhor compreensão dessa relação entre cinema, sociedade e vida na periferia fui até a “Filmagens Periféricas” e conversei com Tio Pac, André e Marilze, os percussores dessa iniciativa. Confira parte do nosso bate-papo na entrevista a seguir:
Rea – Falem um pouco da história de vida de vocês, desde a infância até o encontro com o cinema.
Tio Pac – A minha infância foi igual à de todo negro que nasce e vive na periferia. Entrar na vida dos adultos muito cedo é regra. Ainda moleque comecei a trabalhar - fui engraxate, vendedor de sorvete, office boy etc. Aos quinze anos entrei no Senai e aos dezessete me formei decorador ceramista. Um ano depois, sofri um acidente grave durante um jogo de futebol na empresa. As seqüelas do acidente foram interpretadas como invalidez pela rh da empresa e fui demitido. Diante disso, entrei em depressão. Procurando uma saída, aos dezenove fiz um de técnico eletrônico. O meu pai me incentivou muito. (A família é muito importante pra segurar a onda). Logo depois me amasiei e tive três filhos. Acho que essa experiência pessoal me levou a uma preocupação com o próximo, o que me levou a desenvolver trabalhos sociais. Foi assim que surgiu a idéia de fundar, junto com a Marilze e outros, o “Grupo Ecológico e Cultural Tio Pac”. Foi nesse período que entrei em contato com o cinema. Incumbidos de passar o filme “O bicho de sete cabeças” para a comunidade, acabei fascinado por toda aquela parafernália. Hoje sou um profissional do audiovisual.
Marilze – Acho que é isso. A minha história não difere muito da do Tio Pac. A não ser o fato de ser mulher. Também tive que ter responsabilidade de adulto cedo demais. Certo que não tive que trabalhar fora de casa, mas cuidava da casa e dos meus irmãos novos enquanto meus pais trabalhavam. E não foi moleza não! Não sei hoje, mas, na minha época, quase todas as meninas da minha idade viviam isso. Aos dezenove, casei e aos vinte e três estava divorciada, desempregada e dois filhos para criar. Foi então que conheci o Tio Pac e o cinema. Nessa época fiz muitos cursos e oficinas de audiovisual oferecidos pela Knoforum nas dependências da Mocuti (Movimento Cultural da Cidade Tiradentes). Sou produtora, atriz e roteirista.
André Bem, a minha trajetória é um pouquinho mais complicada. Sou filho de pais separados, e, até os dezesseis anos, fui interno da Febem. Depois disso, fui morador de rua, onde, incrivelmente, entrei em contato com o teatro e a dança. A cultura hip hop também é dessa época. Em 1994, vim pra cá, Cidade Tiradentes, e participei com os dois (Marilze e Tio Pac) dos cursos da Mocuti. De lá pra cá só trabalho atrás das câmeras.
Rea – Como nasce a Filmagens Periféricas?
Tio Pac – O grupo Filmagens Periféricas nasce em 2002, após oficinas de vídeo na Cidade Tiradentes. Foi aí que optei em fazer direção e de lá pra cá já participei de vários outros cursos, e dirigi vários curtas.
Marilze – Acho que do encontro de quatro “loucos” e românticos que queriam mudar o mundo com a arte. E essa arte foi o cinema.
André – Foi também à vontade de dar continuidade ao trabalho realizado nos cursos e oficinas de audiovisual aqui no bairro. Multiplicar isso, sabe? Passar pra mais gente, que como nós tem poucas opções e muitas decepções.
Rea – Quais são as referências de vocês?
Tio Pac – Não posso responder pelo grupo, mas creio que seja Spike Lee, no cinema, e 2 Pac, na música.
André – Ah, véio, são muitas. Cacá Diegues, Glauber Rocha ...
Marilze – Putz! O Glauber é o melhor... “Terra em Transe” é louco demais! Olha, têm uns curtas nossos que têm umas tomadas e cortes bem dentro do que ele fazia nos seus filmes.
André – Então... Zita Carvalhosa, essa mulher nos ensinou muita coisa, Spike Lee, Denzel Washington, Eddie Murphy e assim vai...
Rea - Certa vez, Win Wenders disse que com a câmera digital o cinema de autor estava de volta, referindo-se, sobretudo, ao baixo custo de produção que ela permite. Vocês acham que esse barateamento dos processos de produção cinematográfico ajudaria o trabalho dos diretores negros na realização de seus filmes?
Marilze – Sim, nós somos testemunhos disso. Tudo que a gente usa é micro, portátil e, principalmente, barato. Sem falar que rola um pouco de improviso e criatividade por conta da falta de verbas.
André – Vale lembrar também que somos multifuncionais. Somos, ao mesmo tempo diretor, ator, eletricista, secretária, continuísta etc.
Tio Pac – Realmente com o “barateamento” e a tecnologia que estão aí podemos nos inserir, sem nos esquecermos que o produtor e o diretor negros têm que provar mais de uma vez que seus filmes são bons.
Rea – É fato que, no Brasil, os grandes orçamentos e as grandes produções estão nas mãos dos diretores e produtores oriundos da classe média branca. Até quando essa concentração de recursos, principalmente públicos, vai predominar em terras brasilis?
André – Acredito eu que somente quando for criada uma política do audiovisual realmente democrática, porque elaborada por todos os setores progressistas da área. Por enquanto só bandalheira, bacaninha de um filme só embolsando dinheiro a torto e direita.
Marilze – Esse assunto, cara, até me dói no coração. Tem muita grana aí do governo, BNDES, Lei Rouanet, Lei do Audiovisual que vai para os filmes de gente que já tem grana e contato para angariar fundos no mercado. Outro dia li no Estadão ou Folha, não me lembro bem, que os Filmes da Xuxa e do Renato Aragão são recordistas de captação de recursos públicos...[1] Sem falar dos escândalos envolvendo gente como Guilherme Fontes e Norma Bengel. E nós sem nenhum. Não é justo.
Tio Pac – Aí onde eu volto a falar que se nós não dermos visibilidade aos nossos trabalhos isso vai continuar ocorrendo. Vamos divulgar o nosso produto e mostrar para essa sociedade hipócrita que temos nosso público, que é fiel. Vamos colocar nossos produtos nos grandes meios de comunicação – Globo, SBT, Record, Netinho de Paula, Turma do Gueto, Cidade dos Homens...
Rea – A Ong Cufa (Central Única das Favelas), dirigida pelo rapper MV Bill, criou o curso de audiovisual com a participação dos pesos-pesados da mídia brasileira. O que vocês acham dessa iniciativa? Por que a periferia de São Paulo ainda não fez algo parecido?
Tio Pac – Na verdade essa iniciativa é muito boa. Eu acredito que em São Paulo não se organizam ações nesse sentido porque tudo fica no discurso, não temos muita objetividade. Sei que existe muita gente séria e com boas intenções, mas aqui 90% das idéias não saem do papel. Mas eu quero, em breve, formar parceria com a Cufa para Cidade Tiradentes.
André – Isso vai ser muito bom, véio. Parceria forte é o que precisamos. Ilha é que fica no isolamento. Mas acho que até tem iniciativas desse tipo em São Paulo, mas que ficam mais concentradas nas Zonas Norte e Zona Sul, pois lá estão as maiores instituições sociais, como o Instituto Airton Sena, LBV, a Knoforum etc.
Rea – O Instituto Ethos contratou a Filmagens Periféricas para cobrir o “Prêmio Ethos de Jornalismo – Empresa e Responsabilidade Social”, certo? Então me digam: como rolou tudo isso e como é estar do outro lado da câmera?
Tio Pac – Foi uma negociação tensa para o grupo “Filmagens Periféricas”; foi o nosso primeiro trabalho institucional de peso. Mas após as filmagens realmente concluímos que estamos aptos para o mercado. Estar atrás das câmeras para mim é muito interessante. Nesse evento, por exemplo, nós entrevistamos jornalistas que outrora foram nossos entrevistadores. Nesse dia eu estava dirigindo perguntas para eles. Foi muito louco!
André – Fantástico! Passar de objeto da mídia para sujeito me fez sentir potente, realizador...sei lá, algo como uma sensação de poder tremenda!
Marilze – Acho que eu vivi um pouco das duas coisas, pois trabalhei tanto na produção como na filmagem. Quase fiquei louca. Mas valeu. É uma coisa que mexe tanto com a gente, muito corre-corre, gritaria, trombadas, que é preciso parar um tempo para colocar tudo em perspectiva e saber o que realmente aconteceu. Daí a gente vê que foi tudo legal!

Um comentário:

Anderson Benelli disse...

Oi fiz um videoarte eestou sendo censurado pelo youtube (quem disse que existe liberdade de expressão na internet)aqui www.andersonbenelli.blogspot.com vocês podem ver a obra e o artigo sobre o 31ª edição do panorama da arte brasileira, Espero que vocês possam me ajudar na luta contra a repressão da expressão artística marginal. "Seja marginal, seja herói".

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